Em comemoração ao fato de termos atingido os 500 acessos de blogentos como vc, laço aqui a segunda parte de um dos melhores textos dessa joça (modestia a parte)
O TEMPO III – PARTE FINAL
E eu? Bem, quanto a mim, continuei minha breve existência. Os mesmos empregos, os mesmos sonhos (inalcançáveis!), os mesmos amores. Sinto que fui quem menos mudou. Detesto as mudanças! Perturbo-me ao ver uma velha panificadora de minha infância falindo, dia após dia, até em definitivo fechar as portas. Interessante mesmo na minha vida, apenas a Carolina que encontrei (e não foi em uma padaria...).
Não que deixamos de ser amigos e passamos a ser meros retratos nas cômodas uns dos outros. Não que deixamos de nos ver (excetuando-se, é claro Albuquerque, Zicão, e o Gordo, que nunca mais retornou).
Às vezes nos encontramos. Todavia nada foi como antes. O tempo passou... o tempo voou... e nada continuou numa boa. Mas são os momentos felizes de reencontro que ainda conduzem esta mente. Quando vejo Brito sorrindo... quando ouço Almeidinha tocando... quando bebo uma cerveja ou vejo uma propaganda de banco... Lembro que ainda podemos ser felizes.
p.s. Divulgue esta merda por aí se conseguirmos quebrar a marca dos 1000 acessos, a Souza Cruz nos garantiu que financiaria a compra de um escravo eunuco para doação as Irmãs Paulinas, em troca da alforria de Josias, o papável. Participe e ajude.
Em comemoração ao fato de termos atingido os 500 acessos de blogentos como vc, laço aqui a segunda parte de um dos melhores textos dessa joça (modestia a parte)
O TEMPO II – TUDO MUDA
“O tempo passa, o tempo voa. E a poupança Bamerindus continua numa boa...” Na realidade não sei até onde isso é verdade. Depois que surgiu a tal Poupança Bamerindus, e um dos nossos se foi, nosso grupo começou a fragmentar-se. Com aquela sensacional proposta, o Gordo deixou tudo para trás: sua namorada, seus pais... e nós... seus amigos, e foi para São Paulo.
O Brito sempre foi omisso quanto a duas questões: trabalho ou prestar socorro para alguma mulher na estrada. Com a ida do Gordo, ele ficou decepcionado, e esta decepção enraizou-se tão profundamente em seu corpo que até mesmo esta omissão pelo trabalho corrompeu-se. Brito passou a procurar uma ocupação, e achou-a. Desde aqueles dias, trabalha em uma loja de artigos religiosos, quase esquina com a avenida Brasil. Mas a omissão de socorro até hoje prevalece em seu âmago.
O Cardozão sempre foi o mais intelectual do grupo. Tanto que conseguiu, a exemplo de Brito uma ocupação para seu espírito, trabalho este condizente com suas necessidades mentais. A Biblioteca Municipal desde então nunca mais foi à mesma. Ele fez dela sua subterrânea morada. De lá ele continuou a culpar o sistema por toda a miséria que via!
Quanto ao pequeno Almeida, a veia artística sempre falou mais alto. Quantas vezes não o ouvimos dizendo que sua música ainda seria o pão das massas. E ele tentou dar força a seu sonho. Passou por várias bandas e recordo-me que houve inclusive um tempo em que tocou junto com Cardozão. A certeza que o grupo nunca mais seria reunido veio quando Almeidinha deixou a grande Maringá rumo ao Rio Grande do Sul com a promessa de retornar com uma gravação própria em mãos.
O Zicão nunca mais foi visto. Ele sempre foi o que mais exagerava na bebida. Quando acertávamos um encontro em um boteco qualquer, ele era sempre o primeiro a chegar, sempre algumas doses a frente de nós. Nunca recordava-se de parte da noite. Porém sempre foi um grande amigo e eterno brincalhão. O que fiquei sabendo é que a bebida deixou de ser uma distração para ser seu motivo de vida. Quem o viu disse que tornou-se irreconhecível, o álcool teria desfeito sua fisionomia tão amigável. E ele também não fazia questão de que o reconhecessem. Tudo indicava que envergonhava-se do que se tornou. Em uma dessas apresentações que fazia pelos bares da cidade, antes de ir embora, Almeidinha reconheceu seu velho amigo em uma mesa isolada. Todavia quando acabou o show e pôde procurá-lo, ele já não estava mais lá. Quando fiquei sabendo, entendi que ele tinha vergonha do que tinha se tornado.
O mais dedicado de nós teve o reconhecimento que mereceu: Anísio conseguiu tornar-se um professor de Literatura de renome. Nossa cidade tornou-se pequena para seu talento. Óbvio que isso não ocorreu da noite para o dia. Antes disso Anísio tornou-se um rato de biblioteca, e não foram poucas às vezes que Cardozão deu-lhe cobertura no desaparecimento de alguns exemplares.
A mais triste sina foi a de Albuquerque. Digamos que ele abotoou o paletó de madeira antes do tempo. Em uma noite aparentemente calma de março, ele passava ao lado do cemitério quando dois animais o abordaram. Até hoje o caso não foi bem explicado. A polícia diz que foi assalto e ele tentou reagir, embora quem o conhecia sabia que ele era um sujeito calmo e sem reação nessas situações. O fim dessa tragédia é que encontraram o pobre Albuquerque pela manhã, dentro do cemitério. A perícia afirmou que o corpo foi arremessado por cima do muro já sem vida. Ninguém foi preso até hoje.
Entretanto, o mais curioso é que alguns tornaram a vê-lo. Contam por aí, uma espécie de lenda urbana, que existe um espírito que vaga pelo cemitério. Seria esta entidade descrita como um homem, meio calvo, que teria sido morto inocentemente naquelas redondezas, e que até hoje estaria procurando por aqueles que o tiraram a vida.
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